Encontrei Jesus e ele é romano

Em um trem para Veneza vi Jesus. Cabelos longos, claros, benevolentes olhos azuis e sorriso sereno. Jesus é poliglota e eu não sabia. Enquanto eu falava bobagens diversas – ainda embriagada por causa do vinho e dos pecados da noite anterior – o filho de Deus me observava, sentado em uma poltrona do vagão da classe econômica. Levava uma sacola de lona estampada com símbolos sagrados de várias religiões e acho até que usava sandálias. Fazia gestos sagrados com as mãos ossudas e sem marcas de pregos. Eu estava desconfiada que aquele era o Cristo, mas faltava ele saber a minha língua e entender o que eu dizia. Quando eu disse que se ele fosse mesmo Jesus, entenderia o cada palavra que eu proferia, Jesus, então, me interrompeu para dizer que conhecia o Brasil. Esteve em Porto Alegre, Fortaleza, Natal e Quixadá, mas não em Brasília – embora tenha demonstrado conhecer o traçado da cidade de asas.
Fiquei curiosa para saber a origem de Jesus. Disse ser romano. Guardei as perguntas sobre Nazaré, jumentinho, reis magos e anjo anunciador para mim. 

Conversei com o Mestre sobre as crises econômicas e políticas do Brasil. Jesus lê jornais e livros de história. Ele me perguntou sobre o impacto ambiental que a Samarco causou em nossas férteis águas. Falei a respeito do mosquito que causa doenças e Jesus fez cara de ter tomado para si dores e febres.

Questionou sobre as desigualdades sociais com olhar paciente é misericordioso. 

Quis saber se é um país que respeita minorias. Contei a ele que deputados no Congresso Nacional segregam em nome dele. Jesus fechou os olhos e balançou a cabeça em sinal de consternação, levou as mãos ossudas ao coração em sinal de prece e disse: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem…. E eu não tenho nada a ver com isso.”

*Baseado em fatos reais.

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Testemunhamento

Deixo ao poeta a minha coleção de formigas congeladas. Ao astronauta eu deixo punhados do barro vermelho de Brasília e a estrela mais linda que consegui segurar pela mão. Ao Tempo, deus ousado, deixo pedaços daquilo que fui ou poderia ter sido. Que as minhas garrafas de vinho sejam esvaziadas em uma grande festa e jogadas ao mar com mensagens de amor.

Bicho da seda

Acho que cheguei no limite do fio de seda. Pobre bichinho que o tece, escravo. Meu fiozinho ameaça arrebentar e virar poeira, palavras desencontradas, escassez de tudo. A vida me fez insone diante dela e me fez calada para ouvir ventos e bichinhos trabalharem em tecelagem.

Certo dia nasci transparente e minha mãe viu diante dela o próprio espanto de não saber mais nada sobre a transparência da vida. Temeu por mim, que um dia não reconhecesse mais minhas próprias entranhas. Acontece que transito em cordas bambas pela vida sem ser equilibrista, sem sombrinha e sem ensaio, na ponta dos pés. Se a vida é perigo, não tenho medo, apenas sigo.

Ousadia

Meu sangue marcava os dentes de Tânia e ainda  escorria fúria pelos frisos daqueles lábios carnudos. Tentei acalmá-la com chás e palavras, talvez a estricnina fizesse efeito mais satisfatório.  Perdi minha carne, pedaços de mim que Tânia mastigou, solveu, degustou com paciência voraz e engoliu.  Agora estou dentro do corpo de Tânia como nunca ousei estar.

Ao meio dia

Outro dia, como em todos os dias anteriores e como em todos os outros que virão a partir de agora, aliviei o cansaço das pernas no banco da praça. O sol costuma me cegar ao meio dia e amolecer-me as pernas. Penso que sou água em todas as fases. Ao meio dia sou líquida. Acontece que quando anoitece evaporo em pensamentos mundanos e desapareço entre os lençóis. Quando o sol nasce, sou sólida e densa, embora translúcida. 
E foi ali no banco da praça, outro dia, líquida sob o sol do meio dia que encontrei um papel dobrado, escondido entre as ferragens do banco. Era bilhete, assinado pelo anonimato de rasura, que dizia assim:

“Deixei caneta e papel, extensões de mim, abandonados no fundo da bolsa, infinito de toda mulher. Não podia mais tecer o amor, marcar pele macia com dentes e unhas. Mormaço, falta de ar, cansaço nos olhos. Até quando, meu amor, devemos nos esperar? Devemos nos reter? Queria apenas que desaguasse em mim, enchente, murmúrio, rolasse gotas salgadas no meu ombro, molhasse minha boca e sorrisse em seguida.”

Segredo

A menina nasceu em um tempo em que tudo deveria fazer sentido. A razão era oleira de vidas e destinos forjados em desesperança. Mas a menina tinha um segredo: era fluida demais para ser moldada. Escorria por entre dedos e buscava caminhos diversos, reversos.
A razão não conseguia conter a menina. Acontece que era filha do Senhor dos Sonhos – e este era mais um segredo – e, enquanto dormiam os racionais mortais, vestia-se de lava vulcânica e dançava descompromissada sob os olhares misteriosos do Tempo. 
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