Cecília (primeira parte)

Meu corpo inteiro sorri, olha. Ela disse e rodopiou, inclinado o corpo suavemente para trás. Soltou uma gargalhada e começou a cantarolar melodia que inventara naquele instante. Ela estava feliz, pude ver, ouvir, mas não senti vontade de acompanhá-la naquela dança. Ela estava feliz, independente de mim ou de qualquer um. E aquele momento era só dela.

Havia o medo de aceitar que meu tempo acabara. Havia também o barulho da reforma do prédio ao lado de casa, que minha memória auditiva reteve e agora era zumbido a me acompanhar ao longo da tarde. Aquilo calava qualquer poesia que pudesse nascer em mim, calava minha paciência para a rotina, mas não calava meu medo. Não podia deixar Cecília ir embora, mas era incapaz de aprisionar pássaros e aquela mulher era minha ave de rapina e meu colibri.

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Aridez

Meus olhos são satélites de planetas que ainda não descobriram. Lábios mordidos vertem sangue na aridez do cerrado. Eu deveria estar acostumada com a seca, afinal, muitas vezes recitei a cidade de arcos e curvas, de fontes e olhos d’água. Mas me acostumo a quase nada e o sangue nos lábios tem gosto de metal pesado.

Ao poeta II

Acordei ávida. Recordei uvas da noite passada, acidez e buquê de hortênsias. Os acordes do teu violão embriagado, que percorriam meu ventre suavemente, ainda soam como um tango que preciso aprender a dançar.

Sou ventania e você é rochedo. Sou relâmpago e você, trovão. Em tuas trovas, existem outras musas vestidas de lua, pintadas com as cores do sertão. O Tempo me oferece um beijo amargo e mãos calejadas. Diante de ti, porém, ele ri e se lança no espaço, viril e ousado. Um baile de desejos que não precisamos conter e me envaideço quando suas pernas me enlaçam e me fazem presente.

Ao poeta

Quando você chegar

Maria fumaça diante de mim

Abrigo

Passagem

Espera

Regaço

Chão

Trilho de estrelas

Desejo de abraço e chamas

Que venha

Que tenha

Que seja

Ali, Dali, aqui

Sopro e ardor

Meu mundo em letras, versos

Gracejos

O que vier

E que seja você

Estados físicos

Não tive berço. Dormi em nuvem. Sei que comecei a morrer no dia em que nasci. Sou fruto de orgasmo e, desde o ventre, alada. Deram-me nome em homenagem a borboletas e fui cortejada pelo ar e por poesia. Queres me reter quando suas carnes invadem as minhas, mas sou tantas, essas e aquelas que se liquefazem depois de pequenas mortes.

Adeus

Ele me disse que podia soletrar adeus sem lágrimas. Eu nem tentei e deixei que subisse naquele ônibus. Entendi que poesia podia preencher ausências. Pensei apenas em mim mesma. Tudo era lentidão e revertério. O dia agora passa derretido pelas frestas de portas e janelas. Quero apenas luz para fotografias. Basta-me este sítio onde posso permanecer prisioneira. Disse a ele que não me invadisse, mas permanecesse. Hoje tento construir existência em calor de manhãs que envelheceram.

Igual

Mais do mesmo a esmo. Rimas fáceis gotejando pelo canto da boca, por sede de líquidos inéditos. Sonhos assombrados por pretérito. Avesso era o mundo ou ela mesma estava desembrulhada do presente.